A ARNOIA · O RIBEIRO · OURENSE
A Arnoia, onde a água reza, o vinho fala e a pedra cala
Um pequeno concelho de O Ribeiro tecido de vinhas em socalcos, água termal e aldeias de pedra, na confluência do rio Arnoia com o Miño.
Há lugares que não se explicam com pressa. A Arnoia é um deles: um concelho pequeno da província de Ourense, encaixado no coração da D.O. Ribeiro, ali onde o rio que lhe dá nome se entrega ao Miño entre encostas cosidas de vinhas em socalcos. O próprio município resume-o num lema que parece escrito para ser lido devagar: “Onde a água reza, o vinho fala e a pedra cala”. Basta passear um pouco para perceber que não é poesia de folheto, mas uma descrição exata.
Aqui convivem, sem estridências, as três promessas que o concelho oferece a quem visita: natureza, cultura e desporto. A água brota tépida da terra e fez de A Arnoia um pequeno destino termal; o vinho de O Ribeiro cria-se em socalcos que desenham a montanha; e a pedra — a das igrejas, dos espigueiros, das fontes e dos lavadouros — guarda a memória de séculos. A Bicotorto Pensión Boutique assenta em pleno núcleo de A Laixa (A Laxa), uma dessas aldeias onde o tempo se mede em colheitas e não em relógios, e de onde tudo o que merece ser visto fica, literalmente, à distância de um passeio.
O maior monumento de A Arnoia é a Igreja paroquial de San Salvador, reconstruída em 1612 sobre um templo alto-medieval do século X que dependeu do poderoso Mosteiro de Celanova. De nave única e abóbada de berço, conserva uma janela românica e um Cristo medieval que sobreviveram às reformas, quase como testemunhas silenciosas de mil anos de fé. Ergue-se perto da confluência do Arnoia com o Miño, num dos recantos mais serenos do concelho.
O património menor tece o resto da paisagem: a Capela de San Mauro (San Amaro), a Casa do Inquisidor em Remuíño, as capelas setecentistas de San Roque e San Vicente, a Torre do Reloxo e vestígios mais discretos como A Cibdade (Carnós) ou O Castro (Lapela), para quem gosta de rastrear a história nos detalhes. E muito perto da pensão, na própria aldeia, conserva-se o conjunto de espigueiros de A Laxa, essas arcas de pedra sobre pilares que falam do vínculo antigo entre estas gentes, o grão e a terra.
A Arnoia é terra de água. Do subsolo brotam águas hipotermais sulfuradas-bicarbonatadas a cerca de 22°C que deram origem ao Balneario de Arnoia (Arnoia Caldaria), um estabelecimento de quatro estrelas com circuito termal e thermarium que, além dos seus hóspedes, abre as portas a visitantes de dia. É um emblema reconhecido do município — convém dizer que se trata de outro alojamento, alheio à Bicotorto —, mas a sua existência explica bem por que razão a água ocupa o primeiro verso do lema de A Arnoia. Pode conhecer os seus serviços em caldaria.es.
E é terra de vinho. As vinhas em socalcos que emolduram o vale produzem os brancos e tintos da D.O. Ribeiro, uma das denominações históricas da Galiza. Espalhadas pelo concelho sobrevivem adegas e lagares tradicionais — em Lapela, em Remuíño —, entre elas a Adega Eloi Lorenzo, testemunhos vivos de uma cultura do vinho que aqui não é atração turística, mas ofício herdado. Para traçar rotas e visitas pela comarca, a Ruta do Viño do Ribeiro é um bom ponto de partida.
Quem quiser abraçar a paisagem com o olhar tem onde subir. O Miradoiro do Monte dos Chaos, com os seus passadiços e plataformas de madeira inaugurados em 2020, debruça-se de cerca de 140 metros de altura para dominar a confluência do Miño e do Arnoia: um desses panoramas que justificam a viagem por si só. Mais além, entre A Arnoia e Castrelo de Miño, o Mirador de Coto Novelle tem a raridade geográfica de pertencer a três concelhos ao mesmo tempo, e oferece vistas amplas do vale vitícola.
Quando o calor aperta, a água volta a ser protagonista, mas desta vez para o banho. A área recreativa e praia fluvial de As Poldras, sobre o rio Arnoia, foi reabilitada em 2014 aproveitando um antigo moinho, e é hoje um recanto de banho e merendeiro a um passo da pensão. Espalhadas pelo concelho, as fontes e lavadouros tradicionais de Oliveira ou Lapela completam esse pequeno museu ao ar livre da arquitetura popular da água.
A Arnoia é de trato próximo, e o essencial está à mão. No coração da aldeia, a Tenda de Manola é uma instituição local para o dia a dia; o pão e a doçaria ficam a cargo da Panadería Santa Rita. Para comer sem sair do concelho, casas de pasto como A Lareira ou o Restaurante Arnoia servem cozinha local, a de sempre, a que sabe a esta terra.
Para qualquer informação municipal — festas, horários, serviços — a referência é o Concello de A Arnoia, cujo site arnoia.gal convém consultar antes da visita. Para alargar o raio pela comarca de O Ribeiro e a sua capital, ribadavia.gal e o portal de turismo.gal ajudam a planear passeios de um dia. Uma nota útil para não haver confusões: o Parque Etnográfico do Río Arnoia (Museo do Coiro / O Fiadeiro) encontra-se em Allariz, e não em A Arnoia.
A partir da Bicotorto, no núcleo de A Laixa, A Arnoia não se percorre de carro: caminha-se. Os espigueiros da própria aldeia ficam à porta, e a praia fluvial de As Poldras está a poucos minutos para refrescar nos dias de calor. Gostamos de orientar os nossos hóspedes sem pressas: para que miradouro subir consoante a luz da tarde, em que casa de pasto local pedir o pemento de Arnoia — esse pimento fino e doce que é marca de identidade da aldeia, com a sua Festa do Pemento no início de agosto, declarada de Interese Turístico de Galicia —, ou que adega visitar para entender o Ribeiro de copo na mão.
Se procura água termal, o Balneario de Arnoia abre a visitantes de dia a pouca distância; e se lhe apetecer alargar a viagem, Ribadavia e o resto da comarca de O Ribeiro ficam perto para um passeio. Nós damos a base tranquila — uma aldeia de pedra, o silêncio do vale — e as chaves da casa: onde comprar o pão, onde jantar sem pressas e por onde começar. O resto põe-no A Arnoia, que é muito.